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Autismo: Fazer sentido num mundo confuso
Cada vez mais há crianças diagnosticadas com autismo ou, pelo menos, mais pais a admitirem a doença dos filhos. Ao mesmo tempo, verificamos no rosto de muitos pais a confusão: afinal, o que é o autismo?
Imagine esta situação numa sala de aulas: uma criança movimenta os braços no ar; outra está frustrada com a ajudante do professor; outra, prefere jogar no computador, em vez de brincar com os amigos; outra ainda, fita um ponto perdido no horizonte e ali fica a olhar durante tempo infinito.
Estas crianças estão simplesmente a demonstrar sinais de autismo, uma doença nerológica comum. A taxa de autismo tem vindo a aumentar drasticamente no Canadá. Cerca de 190 mil crianças canadianas sofrem de autismo. Os mais recentes estudos sobre a doença sugerem que o autismo aumentou de 40 para 60 casos por cada cem mil.
O autismo foi descrito, pela primeira vez, no início da década de 40 por dois médicos que trabalhavam independentemente no caso. Leo Kanner e Hans Asperger identificaram uma série de sintomas entre as crianças que estavam a estudar. Ambos usaram a palavra "autismo" - do grego para "próprio", "eu" - para descrever as crianças que estavam a tratar e que pareciam fechadas no seu próprio mundo solitário.
Kanner era psicólogo infantil no Hospital Johns Hopkins, em Baltimore; Asperger, cujo trabalho foi publicado um ano depois de Kanner, era pediatra em Viena.
Uma vez que Asperger, ao contrário de Kanner, incluiu pessoas que tinham uma inteligência entre média e avançada, segundo a sua definição, a comunidade científica reservou "a síndrome Asperger" para descrever pessoas prodígio, assim como determinadas pessoas muito inteligentes que sofriam de autismo. Bill Gates, fundador da Microsoft e o homem mais rico do mundo, é considerado por muitos como tendo características de síndrome Asperger. Gates é visto, muitas vezes, a movimentar-se sozinho e a falar sozinho - hábitos reconhecidos como síndrome de Asperger.
Setenta por cento das pessoas com outras variantes de autismos podem sofrer também de problemas mentais.
O que é o autismo?
O termo é usado em dois sentidos: no sentido específico de Doença Austística (clássica) e de referência às cinco categorias de diagnósticos existentes conhecidos como Doenças de Desenvolvimento Pervasivo (PDD).
A doença de espectro autístico (ASD) é uma condição neurológica que causa deficiências no desenvolvimento do ser humano. Esta doença afecta as funções do cérebro e resulta em dificuldades em comunicar e interagir socialmente. As pessoas que sofrem desta doença demonstram um comportamento fora do vulgar, sobretudo no tocante a actividades e interesses.
As pessoas com ASD demonstram determinadas características a nível de comportamento, social e de comunicação, mas estas podem variar no tocante ao efeito que têm no seu dia-a-dia. Nos casos mais severos, as pessoas com autismo podem exibir comportamentos extremamente repetitivos e fora do comum, sobretudo de agressão ou de auto-flagelo.
Caso não seja tratado, os sintomas do autismo podem ser muito persistentes e difíceis de mudar. No entanto, nas suas formas menos agressivas, o autismo manifesta-se mais como uma diferença em personalidade ligada a dificuldades em compreender as convenções sociais.
Quais são os sintomas do ASD?
Não há nenhum sintoma específico que leve a um diagnóstico de autismo. No entanto, as pessoas que demonstram as seguintes características e comportamentos podem muito bem sofrer de ASD: não têm interesse nenhum noutras pessoas; podem ter interesse em pessoas, mas não sabem como falar, brincar (no caso de crianças) ou relacionar-se com elas; têm enorme dificuldade em iniciar e manter uma conversa; as capacidades de diálogo ou de conhecimento de linguagem podem começar a desenvolver e, subitamente, perderem-se, assim como podem desenvolver lentamente ou nunca desenvolverem; demonstram dificuldade a interpretar comunicação não-verbal, tais como dizer adeus ou olá com a mão, uso de gestos, expressões faciais, tais como um sorriso, entre muitos outros; demonstram acções que se tornam rituais, tais como dar voltas, andar para trás e para a frente, bater com os dedos ou bater em si mesmos; têm interesses muito restritos e demonstram hábitos estranhos, tais como concentrarem-se obsessivamente num objecto, numa actividade ou numa ideia.
Para além destes sintomas, as pessoas com ASD podem também demonstrar problemas secundários, tais como: doenças de ordem neurológica, tais como a epilépsia, problemas gastro-intestinais, deficiências nos movimentos, ansiedade e depressão.
As crianças que sofrem de ASD desenvolvem as capacidades de movimento, linguagem, cognitivas e sociais a um nível diferente das restantes da mesma idade. Por exemplo, estas crianças podem ser óptimas a resolver problemas de matemática, mas demonstrarem uma grande dificuldade em fazer amigos ou dialogar.
Como se pode diagnosticar um ASD?
Não há nenhum teste que possa confirmar se uma pessoa sofre de ASD. Um diagnóstico é baseado num número de características típicas e na observação de comportamentos e deficiências específicas.
Alguém que sofra deste tipo de autismo, mas de uma forma menos agressiva, podem passar durante anos sem serem diagnosticados e poderão só ser detectados quando a pessoa começar a entrar numa crise que os obrigue a entrar em contacto com profissionais que possam reconhecer a doença.
Quais são as causas do ASD?
Ninguém tem certezas. É geralmente aceitável dizer que o autismo é uma doença neurológica. A investigação actual está concentrada em genética, diferenças nas funções cerebrais, factores ambientais, infecções virais e respostas e deficiências de imunidade.
Em 2001, um artigo da revista Wired deu ao termo a designação de "Síndrome Geek", ou seja "excêntrica ou obcecada" depois de investigadores da Califórnia, da região de Silicon Valley, terem notado um aumento significativo no número de caos de autismo.
Os investigadores apuraram que as crianças com doenças autísticas são mais "comuns" em famílias em que os pais têm determinadas carreiras. A meados da década de 90, o psicólogo clínico Simon Baron-Cohen comparou a carreira profissiona dos pais e avós de quase mil crianças com autismo em relação à de pais com filhos que sofriam dos síndromes de Tourette, Down e outras doenças do foro linguístico. Um terceiro grupo de pais foi escolhido à sorte para estabelecer um paralelo. Baron-Cohen chegou à conclusão que os pais e os avós de crianças com autismo tinham tendência para ser enginheiros em muito maior número do que o grupo em que as crianças não eram autísticas.
Um estudo publicado no jornal Nature Genetics, a 18 de Fevereiro de 2007, salientou que uma nova região do ADN, que se pensava ser causadora de, pelo menos, alguns casos de autismo em crianças. O estudo envolveu anomalias nos cromossomas, nos códigos genéticos e nas proteínas.
Como se trata do autismo?
Algumas pessoas com formas menos violentas de autismo poderão nunca necessitar de tratamento, uma vez que podem funcionar bem e ter êxito na vida. No entanto, os que sofrem da variante mais severa não têm capacidade de funcionar na sociedade e necessitam de terapia activa.
Existem várias formas de tratar de uma pessoa com autismo, assim como existe muito debate sobre os tipos de tratamento oferecidos e que têm mais sucesso. As análises do "comportamento aplicado" (ABA), assim como as de "intervenção intensiva no comportamento" (IBI) são designadas para envolver activamente a criança na comunicação, na socialização, na aprendizagem e na resolução de problemas de comportamento.
ABA poderá tornar-se num tratamento muito caro, uma vez que envolver aprendizagem a nível pessoal (um profissional por criança) num total de 40 horas por semana. O custo oscila entre os $30 mil a $80 mil dólares por ano, segundo a Sociedade de Autismo do Canadá. O IBI também é um programa caro que poderá envolver uma terapia a nível pessoal ou sessões com pequenos grupos.
Outros tipos de terapia podem combinar elementos de fisioterapia, aconselhamento, desenvolvimento do motor físico e capacidades linguísticas, dieta e medicação.
Ana Fernandes-Iria
Arquivos: Austism Society of Canada, Autism Treatment Services of Canada, National Alliance for Autism Research.
25-02-2009
