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05-09-2010

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Fim de um grande concerto: João Aguardela partiu

«os dias sem ti/ são todos iguais/ são dias sem brilho/ são dias a mais» (João Aguardela)

A notícia chegou na noite de domingo, 18 de Janeiro. João Aguardela era mais uma vítima a sucumbir à imperdoável doença do cancro.  Tinha 39 anos. Desaparecia, fisicamente, um dos grandes nomes e defensores da música portuguesa.

Quem não se lembra de temas como "Esta vida de marinheiro, A Cabana do Pai Tomás e Vamos ao circo"?  Todos contaram com o contributo e a voz de João Aguardela, então nos Sitiados.

Aguardela fundou os Sitiados em l987, liderando, cantando e tocando baixo. Foi com esse projecto que começou a dar nas vistas na década de 90. Desde cedo ficou explícito que a sua ideia era combinar música tradicional portuguesa com linguagens como o rock ou a pop, um desígnio de fusão que nunca abandonou, como se constataria mais tarde com A Naifa e Megafone.

O músico Jorge Buco esteve com ele desde o início. “Trabalhei com ele 17 anos, era espontâneo, criativo, sempre insatisfeito. Com ele, ou era para fazermos alguma coisa nova ou mais valia estarmos quietos. Tive a felicidade de ajudá-lo a pôr de pé muitas dessas ideias.”

O amigo, e guitarrista dos Xutos & Pontapés, Zé Pedro, recorda-se dos primeiros tempos dos Sitiados. “Tiveram uma entrada de rompante e foram uma lufada de ar fresco”, diz, ao mesmo tempo que recorda alguém que “era entregue à causa” da música e que, em palco, era um “frenesim, aquilo a que se chama um 'animal de palco’.”

“Deixa um grande legado para a música portuguesa”, afirma Carlos Moisés, cantor dos Quinta do Bill, da mesma geração que Aguardela, tendo gravado com ele Senhora Maria do Olival, para a antologia Filhos da Nação.

“Teve um percurso singular, experimentando música tradicional portuguesa com outras roupagens. Tinha paixão pelo tradicional, mas vivência urbana”, diz, lembrando que quando começou Aguardela tinha 17 anos. “Era o mais novo de nós. Tinha um lado interventivo, inconformado.”

João AguardelaEm 1992, os Sitiados editaram o álbum Homónimo de estreia com o tema "Vida de marinheiro", que conheceu enorme sucesso, conseguindo que o grupo vendesse cerca de 40 mil exemplares. O segundo álbum, "E Agora?", é editado no ano seguinte e em 1994 a banda integra o projecto de tributo a José Afonso, Filhos da Madrugada.

O "Triunfo dos Electrodomésticos", em 1995, Sitiados, em 1996, e "Mata-me Depois", em 1999, foram os álbuns que se seguiram. Em 2000 dão por encerrado o grupo.

Para além dos discos, distinguiam-se pelos concertos foliões e por letras onde não se coibiam de comentar a realidade social portuguesa. Uma das suas canções mais emblemáticas, "A cabana do pai Tomás", apesar do tom de fábula, era sobre o escândalo Taveira.

 

Um ouvido no tecno, outro no folclore

Em 1996, numa entrevista ao jornal Público, Aguardela interrogava-se “porque raio não há em Portugal música de dança de raiz popular?”, numa alusão ao facto de haver quem não aceitasse que combinassem tipologias tecnológicas, como o tecno ou rap, com folclore.

Esse foi sempre o seu propósito. O projecto solitário, Megafone, voltava a denunciá-lo. O álbum Homónimo, de 1997, era uma selecção de electrónicas acopladas a recolhas etnográficas – feitas por José Alberto Sardinha e Michel Giacometti – de cantos tradicionais. Era também uma aposta pessoal de Aguardela, que acreditava – antes do assunto se ter banalizado – que era possível lançar discos à revelia das editoras.

Os três álbuns seguintes de Megafone seguiram os mesmos pressupostos, misto de cidade e campo, música popular e urbana, actualização de recolhas de música tradicional portuguesa por via electrónica.

“Às vezes sinto que sou tradicional demais para o meio pop e que sou pop demais para o meio tradicional”, dizia em 1997, a propósito de Megafone.

A sua outra obsessão era a palavra. Em 2002, na companhia de Luís Varatojo, e uma série de vocalistas convidados, criou o projecto Linha da Frente, na tentativa de musicar poetas. Entre essas vozes estava a de Viviane (ex-Entre Aspas) que recorda que “tinha uma forma inovadora de fazer música”, realçando que “deixa um vazio difícil de preencher porque associava, como ninguém, a cultura portuguesa com coisas recentes”.

Como consequência dos Linha da Frente, nasce em 2004 A Naifa, ao lado mais uma vez de Varatojo, com palavras de poetas portugueses para guitarra portuguesa e voz de fado melancólica sobre ritmos electrónicos lânguidos.

Com três álbuns – o último dos quais é "Uma Inocente Inclinação Para o Mal" de 2008 – o projecto impôs-se, apostando na recriação do fado, sacudindo mais uma vez as raízes e as memórias portuguesas.

Porquê essa obsessão? Talvez por isto: “se me perguntasse: 'gostava que Portugal fosse diferente?’ Sim, gostava, não me contento com o que é”, dizia  há dois anos.

Amigos recordam-no com saudade

Ricardo Alexandre, jornalista e amigo de Aguardela recorda o músico como “um homem solidário, envolvido em causas que lhe pareciam justas” e que "soube antecipar uma série de coisas”.

Jornalista da Antena 1, Ricardo Alexandre foi o autor do comunicado oficial do falecimento do músico que conheceu na década de 80.

"Conheci o João Aguardela em 1987 através do João Nuno Coelho, sociólogo de futebol e um amigo comum. E na altura, o que nos uniu foi sermos fãs dos Xutos & Pontapés", recordou.

Zé Pedro, guitarrista dos Xutos & Pontapés, lembra o ex-vocalista dos Sitiados como “uma força muito positiva no meio musical”. O guitarrista recorda-se da participação dos Sitiados na colectânea “"XX anos XX bandas", dedicada aos Xutos & Pontapés e do concurso Rock Rendez – Vous ao qual a banda concorreu na década de 80.

Foi também através deste concurso que Carlos Moisés, vocalista dos Quinta do Bill, conheceu Aguardela, que recorda como “um criativo à procura de novas roupagens para as nossas raízes da música tradicional”.

Já Viviane, vocalista dos Entre Aspas e amiga de João Aguardela, definiu-o como “"um músico singular que teve uma profunda paixão pelas raízes da cultura e da música portuguesa e isso reflectia-se na música que fazia".

Naifa é o projecto mais revolucionador do fado

António Pires, jornalista e crítico de música tradicional, afirmou o seu "pesar profundo" pelo falecimento de João Aguardela, com quem se cruzou "várias vezes" ao longo do seu trajecto na imprensa.

"A Naifa é o projecto que mais revolucionou o Fado em Portugal", afirma o antigo chefe de redacção do Blitz, deixando ao músico "um muito obrigado por tudo aquilo que fez pela música portuguesa".

Das memórias, António Pires guarda o primeiro contacto com os Sitiados, grupo que o impressionou pela "junção que fazia de coisas vindas de fora com música tradicional portuguesa, com uma visão muito fresca e dinâmica".

O projecto Linha da Frente foi, na visão de António Pires, "o trabalho mais pessoal em que o João alguma vez se envolveu, e viria a dar algumas pistas para a obra que viria a desenvolver n' A Naifa"".

Sobre a continuidade do grupo, o jornalista indica que "gostaria que tal sucedesse, mas tenho dúvidas e não sei se fará sentido".

Distinguido em 1994 com o Prémio Revelação da Sociedade Portuguesa de Autores, João Aguardela liderou os Sitiados, grupo pop-rock que se inspirava na música tradicional portuguesa.

A busca das raízes e da tradição musical portuguesa levou-o também ao projecto Megafone, no qual recorria a recolhas etnográficas de Giacometti e José Alberto Sardinha, adicionando-lhes electrónica.

Liderou ainda o projecto "Linha da Frente" e desde 2004 integrava A Naifa, juntamente com Mitó e Luís Varatojo, com quem editou em 2008 o álbum "Uma inocente inclinação para o mal".

Ana Fernandes-Iria