A PALAVRA-CHAVE DA INFORMAÇÃO
05-09-2010

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Michael Ignatieff: o novo Trudeau do Canadá?

Depois de ter sofrido a segunda pior derrota na sua história, o partido liberal acaba de colocar na liderança um homem que chegou à política há apenas três anos: Michael Ignatieff.

O que terá levado este ex-académico a rejeitar a vida de Harvard pelo parlamento canadiano?   Quem é, afinal, Michael Ignatieff?

Chegada à liderança

Logo após as eleições federais de 14 de Outubro, o líder liberal, perante uma derrota histórica do partido – conseguiu eleger apenas 77 lugares do parlamento -, anunciava a sua demissão, mas comprometendo-se a permanecer à frente do partido até Maio, data da convenção liberal, na cidade de Vancouver, que serviria para escolher o novo líder.  No entanto, Stephane Dion não podia prever que as coisas mudassem tão drasticamente dali a algumas semanas. A possibilidade de que o governo de minoria conservadora pudesse ser derrotado sobre o orçamento que vai apresentar no final do próximo mês, veio mudar a dinâmica.

Até o dia 9 de Dezembro, o partido liberal tinha dois candidatos à liderança: os ex-colegas de faculdade Bob Rae e Michael Ignatieff.  O terceiro candidato era o deputado Dominic LeBlanc, de New Brunswick que, um dia antes, tinha anunciado a sua retirada para dar apoio a Ignatieff.

Bob Rae seguiu o exemplo, no dia seguinte, livrando o caminho para que o vice-presidente do partido pudesse ser o único candidato e, como tal, o escolhido pelo partido que o tinha deixado em segundo lugar na convenção de Dezembro de 2006.

Quem é Michael Ignatieff?

Michael Ignatieff é um caso interessante para o partido liberal, uma vez que é um político provavelmente mais conhecido fora do Canadá do que propriamente no país.  No entanto, depois de ter sido eleito deputado, por duas vezes consecutivas, no bairro de Etobicoke-Lakeshore, em Toronto, e de ter ficado em segundo lugar, com 45.3 pontos, na liderança ao partido em 2006, tornou-se o “homem do dia”, para não mencionarmos o primeiro novo líder liberal, em décadas, a não ser eleito pela convenção de delegados.

O académico e autor nativo de Toronto abandou o posto de director do Centro Carr para estudos de direitos humanos da Universidade Harvard em Agosto de 2005 para ensinar na Universidade de Toronto e, pouco tempo depois, se candidatar ao parlamento.

Fluente em inglês, francês e russo (o avô serviu no governo russo do czar Nicolau II), Ignatieff, agora com 61 anos, é autor de 16 livros, com títulos tão sugestivos como “Sangue e Pertencer” e “A Revolução dos Direitos”, onde explora temas variadíssimos, como o nacionalismo, a forma moderna de fazer guerras e os direitos humanos.

Michael IgnatieffIgnatieff ganhou o prémio de não-ficção da Governadora Geral pelo livro “O Álbum Russo”, uma memória de família que escreveu em 1987 e chegou também a ser nomeado para os prémios Booker e Whitbread Novel  para o romance “Scar Tissue” que escreveu em 1993.

No entanto, os ucrânianos residentes no seu bairro eleitoral protestaram passagem do livro “Sangue e Pertencer”, de 1995, acusando-o de fazer comentários pejurativos contra a sua cultura e a oposição já o acusou de ter condenado “as táticas” usadas pelas forças americanas com os prisioneiros suspeitos de estarem ligados à al-Qaeda.  Ignatieff foi igualmente criticado por ter apoiado a invasão do Iraque pelo presidente americano George W. Bush que teve como objectivo expulsar o líder iraquiano Saddam Hussein do governo acusando-o de tortura e de matar os seus cidadãos. Ignatieff já admitiu estar errado no caso da invasão do Iraque.

No entanto, a sua decisão em regressar ao Canadá no Verão de 2005 foi bem recebida nas publicações nacionais que o descreveram como o futuro líder do partido liberal.  Tal como como o jornalista e autor de biografias, John Gray, disse sobre a convenção de 2006, Ignatieff não é apenas o candidato preferido dos eleitores liberais, é igualmente visto como um novo Trudeau.

O novo Trudeau?

Michael Ignatieff nada fez para ser comparado com Trudeau, segundo os peritos.  Na verdade, foi o próprio que sempre insistiu, desde o início, que “Só houve um Pierre Trudeau; não haverá outro”.  No entanto, desde o início que o fantasma de Trudeau tem estado presente na sua vida política. Seja o que for que o candidato tenha pensado, os apoiantes quiseram acreditar que Ignatieff era o forasteiro que poderia salvar o partido Liberal numa altura de crise. No entanto, segundo Gray, a comparação não combinava.  Para começar, Trudeau não era caloiro na matéria de política. Tinha sido deputado três anos, serviu brevemente como ministro da justiça, tinha trabalhado na Conselho Privado de Otava e passou grande parte da sua vida adulta envolvido em actividades políticas.

Em contraste, Ignatieff só foi eleito deputado na noite em que Paul Martin se demitiu da liderança do partido. Tinha viajado pelo mundo, ensinado em universidades e escrito livros e, durante 35 anos da sua vida, não visitou o Canadá, a sua pátria, a não ser para férias ou esporadicamente.

Nos últimos dois anos, Michael Ignatieff ficou por dentro dos problemas nacionais e regionais da política canadiana.  Também foi o alvo principal das campanhas publicitárias do partido conservador que o tentaram atacar por tudo o que tinha dito e feito.

Não levou muito tempo aos rivais de Ignatieff, por exemplo, a descobrir os seus discursos e jornalismo do passado em que se identificava assiduamente como americano.  Ignatieff falou e escreveu na primeira pessoa – nós, a nossa vida, a nossa constituição e os nossos líderes; Ignatieff terá mesmo afirmado que “ser americano não é fácil”.

Jeffrey Simpson, do matutino Globe and Mail, escreveu sobre Ignatieff, durante a fase inicial da sua candidatura ao partido, que “ele é o que tem menos cicatrizes canadianas devido ao facto de não ter enfrentado muitas batalhas no seu próprio país, um facto que por si só, noutros países, quase desqualificava automaticamente qualquer pessoa de ter ambições de liderança sérias, mas que, neste país, pelo menos dentro do enfraquecido partido liberal, é aparentemente visto como uma vantagem”.

A sua posição em relação ao Québec

A longa ausência de Ignatieff não foi só um problema para a sua óptica política, segundo disse Gray.  O homem é fácil de se estudar, mas às vezes o seu julgamento parece surgir dos estudos em vez de reflexão madura.  Uma vez, Ignatieff afirmou afirmou “ter o pressentimento de nunca ter sido do Canadá”, embora não parecesse.  

O assunto com o qual a sua falta de familiaridade aparentou ser mais negativa prendeu-se com a questão do Québec.  Sobre o Québec e a Constituição, Ignatieff disse “que está na altura de levar esta questão a uma conclusão de êxito”. Teoricamente, está certo. Porém, só alguém que tenha estado fora do país durante o período dos acordos de Meech Lake e Charlottetown é que poderia querer trazer o assunto novamente à superfície.

Mesmo assim, o domínio impecável que tem do francês e o alto nível intelectual parecem ser pontos vantajosos entre os liberais do Québec.  Há quem diga que foi o político que teve a melhor equipa de apoio do Québec, ultrapassando Stephane Dion.

Coligação ou não coligação?

Como vice-líder do partido, Ignatieff foi provavelmente influente em convencer os liberais a concordar com a expansão da data da missão do Afeganistão até 2011.  Sem qualquer sombra de dúvida, foi o liberal que mais falou e apoio o envolvimento militar do Canadá naquele país.

Durante a última campanha eleitoral, Ignatieff apareceu em comícios ao lado de Dion para apoiar o plano “Green Shift”, um controverso plano ambiental que incluia um imposto sobre carbono.  Na verdade, foi Ignatieff quem primeiro pensou na ideia de uma receita-neutra de impostos sobre carbono durante a campanha de liderança de 2006.

No entanto, em Novembro passado, depois das eleições de Outubro cujo resultado reduziu o partido aos resultados mais baixos desde a Confederação, disse aos jornalistas que o plano ambiental “Green Shift” estava morto e que uma nova política ambiental teria de ser estudada e apresentada.

Através dos seus apoiantes, Ignatieff também deu a notar que não era o maior apoiante da coligação Liberal-NDP, com o apoio do Bloco Québécois,  que Dion fez logo após a leitura do discurso de trono e da apresentação do mini-orçamento conservador.  Segundo o plano da coligação, Dion estava preparado para ser primeiro ministro interino até à convenção liberal em Maio, altura em que seria escolhido o seu substituto.  

Se Ignatieff vai aceitar a coligação, se vai contribuir para o renascimento do partido liberal, se vai ser o novo Trudeau, teremos que esperar para ver.

Ana Fernandes-Iria

Fontes: Arquivos políticos, Dados Biográficos de Ignatieff, Arquivo Globe and Mail