A PALAVRA-CHAVE DA INFORMAÇÃO
05-09-2010

Escândalos sexuais: o verdadeiro norte?

Quando o governo de um país enfrenta um escândalo inesperado, a especulação pública apressa-se a classificá-lo na categoria das “saias”. E no caso do Canadá?

No caso do Canadá, país também com a sua conta de escândalos na história, quantos casos terão a sub-designação de “sexual”?

Os escândalos canadianos têm, por regra, a reputação de “ausência obscena” tantas vezes encontrada nos Estados Unidos da América, onde as carreiras do ex-presidente Bill Clinton, do governador de Nova Iorque Eliot Spitzer e muitos outros têm sido denominadas de “delitos sexuais”. No entanto, os políticos do nosso país também têm tido a sua dose de “comportamentos menos aceitáveis”, embora os escândalos sejam menos lúgubres. Nesta reportagem, vamos analisar alguns casos famosos que contribuiram para uma dose de escândalo na política canadian.



1933: John Edward Brownlee

Em Julho de 1933, Brownlee, então primeiro ministro da província de Alberta, deu uma boleia a Vivian MacMillan, secretária do gabinete do procurador geral.  Em Agosto, foi processado por sedução. O que aconteceu é que o noivo de MacMillan, um estudante de direito, tinha seguido o veículo de Brownlee naquilo dia de Julho e usou o incidente como agente catalítico para um processo em tribunal, servindo-se da lei da província de Alberta contra a sedução (Seduction Act).

Brownlee negou todas as acusações e lançou um contra-processo onde acusou MacMillan, o pai e o noivo de terem arquitectado um plano com intenções de receberem uma recompensa monetária.

Em 1934, o juri acusou Brownlee de sedução, mas o juiz ignorou o juri e decidiu anular o caso, mas obrigou os MacMillan a pagar a Brownlee todas as depesas que teve com o processo.  Não obstante a decisão do tribunal, Brownlee demitiu-se nesse mesmo ano do cargo de primeiro ministro.

Em 1937, os MacMillan voltaram a apelar a decisão do juiz e, eventualmente, receberam os $10 mil dólares que tinham pedido.

1966: O caso Munsinger

O primeiro grande escândalo sexual a nível politico do Canadá teve todos os ingredientes para um extraordinário filme de espionagem.

Em 1966, enquanto se defendia na Câmara dos Comuns das perguntas do partido conservador, então na oposição, sobre um maltratado caso de segurança, o ministro da justiça liberal, Lucien Cardin, disse “E o que tem a dizer de Munsignor?”.

Cardin estava, na realidade, a referir-se a Gerda Munsinger, uma alegada prostituta e espia soviética que tinha vivido em Otava.  Segundo a especulação, Gerda teria tido, alguns anos antes, um caso amoroso com vários ministros e deputados do então ex-primeiro ministro conservador John Diefenbaker.

Embora tenha sido deportada para a Alemanha do Leste sem grandes alaridos, em 1961, depois de uma investigação da Real Polícia Montada do Canadá sobre a sua actividade, só alguns anos depois é que os casos entre Munsinger e alguns políticos conservadores apareceram na política nacional.

1977: Margaret Trudeau

Embora já houvesse boatos em 1977 que o casamento do primeiro ministro Pierre Trudeau e da mulher, Margaret, estivesse a chegar ao fim, foi preciso a intervenção de uma estrela de rock para transformar a especulação em escândalo.

No dia em que fazim seis anos de casados, Margaret foi a um concerto dos Rolling Stones, em Toronto, e foi vista, horas depois, a divertir-se com a banda até altas horas da noite.  

Logo a seguir a esta noite, Margaret apanhou um voo até Nova Iorque para evitar o escrutínio dos meios de comunicação, embora o desaparecimento só tenha contribuído para mais escândalo, uma vez que o vocalista Mick Jagger também viajou para essa cidade na mesma altura.

No final, tanto Mick Jagger como Margaret Trudeau negaram ter tido qualquer envolvimento.

1978: Francis Fox

O ex-procurador geral Francis Fox foi forçado a demitir-se do cargo a 27 de Janeiro de 1978, depois de ter vindo a público que tinha feito preparações para que a sua amante – de uma noite – fizesse um aborto, falsificando o nome do marido da amante nos documentos do hospital.

Fox demitiu-se e, no mesmo dia, confessou o delito, na câmara dos comuns.  Esta confissão deixou muitos em estado de choque, uma vez que Fox era visto como uma estrela no seio do partido liberal.

Fox acabaria por regressar à política, durante o governo de Pierre Trudeau, em 1980, como secretário de estado do Canadá e ministro das comunicações.



1985: Robert Coates

O ministro da defesa do então governo progressista conservador, Robert Coates, viu-se envolvido num escândalo publicado, em 1985, pelo jornal Ottawa Citizen.  A notícia falava de uma visita que Coates e dois assistentes tinham feito a um clube nocturno de stripe na Alemanha Ocidental, enquanto participava da reunião da NATO.  Nessa notícia, o jornal questionava as implicações a nível de segurança que estavam ligadas às acções do ministro.

Embora Coates tenha negado parte da história, acabaria por se demitir como ministro pouco tempo depois da publicação da notícia.

1995: Gerald Regan

Em 1995, o ex-primeiro ministro de Nova Scotia, Geral Regan, foi acusado de um número de ofensas sexuais que datavam desde a década de 50.

Regan foi a tribunal onde o acusaram de oito crimes, incluindo violação, tentativa de violação e sujeição forçada. No entanto, o escândalo não terminou aqui e, em 1999, recebeu outras acusações.  Nestes novos casos, Regan era acusado de ter forçado jovens a contacto físico e beijos entre 1968 e 1978.

1999: Wilbert Keon

“Um erro de julgamento”, tal como o próprio o classificou, levou o senador conservador Wilbert Keon a demitir-se como presidente do Instituto Cardiologista da Universidade de Otava.

O nome de Keon surgiu num caso de prostituição que a polícia desvendou em Dezembro de 1999 quando encostou o carro em que seguia, numa estrada, e iniciou um diálogo com uma mulher que julgava prostituta. Acontece que a “prostituta” era na realidade uma agente policial disfarçada.  

Keon não foi a tribunal, nem legalmente acusado, mas teve que participar e completar um programa de sensibilidade da escola “John”.  Mesmo assim, Keon não se demitiu como senador.



2008: Maxime Bernier

No início de Maio deste ano, o ministro conservador dos Negócios Estrangeiros Maxime Bernier viu-se alvo do escrutínio parlamentar depois de ter vindo a público uma série notícias em que sugeriam que a ex-namorada de Bernier, Julie Couillard, tinha estado envolvida numa quadrilha motar e tinha tido um caso com figuras do crime organizado.  O primeiro ministro Stephen Harper ignorou as notícias como sendo uma questão privada irrelevante para o governo.

No entanto, a entrevista televisiva de Couillard algumas semanas mais tarde trouxe a relação de Bernier ao parlamento.  Na entrevista, em francês à TVA, Couillard disse que Bernier tinha deixado documentos secretos do governo sobre uma reunião com a NATO no seu apartamento. Couillard também admitiu que os peritos da segurança tinham investigado o seu apartamento e lhe tinham confessado a possibilidade de haver um microfone instalado no seu colchão.

Bernier demitiu-se do posto governamental que ocupava a 26 de Maio, horas antes da entrevista ter ido para o ar.

Arquivo: Enciclopédia Canadiana, Arquivo Histórico, Arquivo Televisivo da CBC

Ana Fernandes-Iria